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"Louco? Loucos são os Loucos que me chamam Louco mas que não conseguem ver a genialidade da minha Loucura!"

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Memórias de um Caxineiro - Parte 3

por Narciso Santos, em 17.05.17

 (Sim, Caxineiro que se preze atirava-se da cruz, onde se encontra a gaivota)

Lá diz o ditado, antes de caminhar aprende a gatinhar, antes de correr aprende a caminhar… Mas eu queria muito ser adulto antes de ter vivenciado o “ser criança” e o “ser adolescente”, lá corri antes de caminhar… Como quando era pequeno me lançava do Cais Sul para a água sem pensar nas consequências que daí poderiam advir, me lancei para a “Técnica” para a Escola Secundária José Régio no 8º Ano!

Se por um lado tinha perdido metade dos amigos quando passei da primária para a Escola Frei João, por outro lado fiz novas amizades aqui nesta nova escola mas tudo mudou quando me senti adulto e lá pedi transferência para a “Técnica” eu e mais 2 amigos que me acompanharam desde a primária, ter uma base e um suporte é muito importante, eu tinha eles dois em um mundo que começou por revelar-se muito estranho.

Se comecei na outra escola a perceber o status e a estratificação da sociedade, aqui nesta nova escola é que percebi de facto a diferença e os valores “MATERIAIS” que davam às marcas, á roupinha cara, às pessoas, à embalagem, etc…

Para começar a minha turma do 8º ano era basicamente o pior pesadelo dos professores, tinha colegas que já deveriam estar 3 ou 4 anos à frente mas simplesmente eram repetentes compulsivos… A escola era estruturada por grupinhos: Os Betos, Os Surfistas, Os tipos de Desporto que eram na sua maioria jogadores do Rio Ave, Os Metaleiros com as suas calças de ganga pretas super hiper mega skinny, (basicamente uns collants feitos em ganga), as famosas “City Jeans”, O pessoal da aldeia, etc…

Claro que eu fui logo me juntar aos famosos “gandins” os meus conterrâneos Caxineiros, claro está que no final do ano lectivo, somente metade passou para o 9º Ano, os restantes uma vez mais ficaram pelo caminho, e a vida era assim, saindo uns e entrando outros…

Chega a época das Calças à Boca de Sino, do cabelo à Kurt Cobain, das camisas de flanela aos quadrados, das calças Levi´s mas compradas nos ciganos da feira, pois não havia como gastar 14 contos num par de calças, tive a sorte de me darem umas Allstar Vermelhas, acho que foi o meu primeiro artigo de marca. Como qualquer Caxineiro lá fui dar uns “chutes” na bola para o Rio Ave.

Lembro-me de todas as pessoas terem pavor do “bairro vermelho” ao lado da escola pois era onde viviam os ciganos, que se tornaram grandes amigos meus, lembro-me do bairro do Caximar também ter má fama, e estas pessoas também se tornaram amigos, somente inimigos dentro de um campo de futebol, onde a palavra perder não entra no dicionário nem num jogo a “feijões”.

Lembro-me que me deslumbrei demasiado no 10º ano que me espalhei por completo em quase todas as disciplinas, lembro-me das saídas as quartas feiras a tarde antes de ir treinar de 15 em 15 dias festa da escola no Totta Bar. Lembro-me das saídas à noite para a discoteca Enseada. Lembro-me que 1 fino custava 50 escudos (25 cêntimos); lembro-me que o cinema custava 300 escudos (1,5€)… Lembro-me de muita coisa…

O Rio Ave F.C. dominava as conversas de café, o relato soa todos os domingos na mão dos velhos e menos velhos, entre o baralho de cartas e a Super Bock. Nos dias de derbi (Varzim x Rio Ave) era o “foge da frente”…

Pois foi ali / aqui que cresci, vivi e aprendi.

Nos dias de hoje os putos já andam com roupa de marca desde que nascem, são catalogados quando entram no infantário, essa catalogação passa com eles para a primária e depois depende se continua ou não pelas mãos da professor(a) primária…

Tentar explicar a eles o que eram as Caxinas, que no meu tempo não haviam computadores, tablets nem telemóveis. Mas tento uma vez por semana, levar a ver o avô no cais, dentro do barco a trabalhar, explicar onde nasci e cresci para ver se conseguem absorver alguma coisa e acima de tudo não renegar as raízes como muitos as renegam e escondem.

Uma coisa é certa nesta vida, para sabermos para onde queremos ir, nunca nos devemos esquecer de onde viemos e a minha âncora está aqui nesta terra: Caxinas, Vila do Conde.

Nós não somos melhores nem piores do que ninguém, somos diferentes: “Estátuas de Bronze a Andar”, os Caxineiros da poesia de José Régio.


Memórias de um Caxineiro - Parte 2

por Narciso Santos, em 16.05.17

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… Nunca se esqueçam que Os Caxineiros são Vila-condenses de 1ª, como são os de outros lugares da cidade de Vila do Conde.

Mas o que é certo é que nunca me senti um Vileiro, nem um Poveiro!

Como tudo na vida o tempo passa, e um tipo vai crescendo e termino a 4º classe, despeço-me da escola primária das Caxinas e passo para a 5º classe para o “Ciclo”, Escola Frei João. Esta escola já era naquela altura outro nível, era como se passasse-mos de jogar nos Regionais para uma primeira divisão, sendo que a “liga dos campeões” aguardava do outro lado da rua, na “Técnica” - José Régio!

Logo na passagem para a escola preparatória perco mais de metade dos meus amigos da primária, e vou para uma turma com quase todos desconhecidos, também é aqui que começa a mistura de culturas, entre os Caxineiros e os Vilacondense oriundos das freguesias de Vila do Conde.

Sei que me sentia um pouco enjaulado, por as grades que cobriam a escola de forma a não podermos sair, Salgado sempre atrás de nós (com a sua frase, “levas um…”), os tempos de ter aulas somente de manhã terminam e passo a ter umas 12 disciplinas por ano, ou seja, fico completamente prisioneiro e refém da escola, pois era um “trabalho autêntico” entrava as 8:00 saía as 18:30.

Nem tudo era mau, os pacotes de leite da agros achocolatados ainda continuavam a ser distribuídos de manhã e de tarde, aprendi a fazer novos amigos fora da minha redoma das Caxinas e aprender a viver na diversidade, também comecei a perceber a estratificação da sociedade onde afinal não éramos todos feitos de “água, sal e areia”, uns tinham além disto, tinham “uns crocodilos” “um tipo em cima de um cavalo” e uns outros dizeres…

O Caxineiro tendo como atributos o ser: valente, poeta e filósofo, melancólico e sonhador, muito religioso, fraterno e generoso, tempestivo no momento de fúria, mas cordeiro e humano, honrado e supersticioso, bom chefe de família e trabalhador, já não chegava, pois as marcas falavam um outro idioma, além do nosso linguarejar próprio, que tanto nos orgulha, o nosso sotaque… sim o “Novo-riquismo” tinha chegado…

Lembro-me perfeitamente da lojinha em frente a Frei João que vendida os gelados de gelo a 25 escudos, os famosos Fãs e as broínhas de mel por 20 “paus”… Dizia a minha mãe que iria comer na cantina da escola mas em vez disso, saltava as grades e lá ia comer a lojinha, pois Caxineiro que se preze não come na cantina, mas sim broínha, sandes, batatas fritas e a famosa gasosa na lojinha.

As minhas professoras coitadas, muitos cabelos brancos, azuis, verdes devem ter ganho, pois era tanto o disparate efectuado dentro da sala de aula…

Apartir do 6º ano, começa aqui a grande diferença na escola, pois a maior parte dos meus amigos abandona a escola, a razia de más notas era evidente, os “não satisfaz” eram banais, pois parecia que que a praia e o mar nos chamavam continuamente…

Mas como qualquer criança, o meu objectivo era ser “Grande” querer ir para junto dos adultos, querer ir para a tão aclamada “técnica” e peço transferência no final do 7º ano para ir para junto dos “grandes” dos adultos…

TO BE CONTINUED…

Porque raio quando somos pequenos queremos crescer rápido? E quando somos grandes queremos voltar a ser pequenos? Simplesmente não sabemos desfrutar de cada etapa que a vida nos proporciona com o tempo que nos é permitido e sem correrias…

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