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"Louco? Loucos são os Loucos que me chamam Louco mas que não conseguem ver a genialidade da minha Loucura!"

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Memórias de um Caxineiro - Parte 1

por Narciso Santos, em 15.05.17

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Mais ou menos 5 meses após ter iniciado este blog, denoto que existem umas boas 3 pessoas inclusive bloggers a olhar para este cantinho meu… que agora se tornou V/ também, pessoas estas que sabem, não sabiam e saberão onde ficam as Caxinas no mapa de Portugal. Aliás até recebo um comentário da “Maria” que me pergunta: “Quando te voltamos a ter com ânimo? A escrever sobre as Caxinas e as coisas boas da vida?” Pois aqui estou eu a escrever e lutar de certa forma por esta “terrinha” que merece muito... mas muito mesmo…

Saindo eu da fornada de 1980, e crescendo nas Caxinas onde a vida para um puto não era fácil e ainda muito menos quando se sabia que se ficaria órfão de Pai (não no sentido literal da palavra) mas sim porque o meu Pai como os Pais de muitos amigos meus tinham que embarcar em jornadas de 10 meses para o alto mar, para a Pesca (sim uma característica das Caxinas) e busca de melhores condições de vida.

Lembro-me perfeitamente a “creche” vivida com dezenas de outras crianças, era uma creche que fazia parte da fábrica de sardinha e onde todos os filhos das trabalhadoras estavam inseridos, eu inclusive (sim aqui não havia número máximo de alunos por turma, era mais um “ainda cabe mais um”) mas era Grátis!

Entrei com 6 anos na escola primária das Caxinas, infelizmente não entrei no edifício antigo (majestoso e impressionante), mas na parte “mais nova” pois o edifício antigo era frequentado pelos alunos mais velhos. Lembro-me perfeitamente dos pacotes de Leite Achocolatado da Agros que alegravam as minhas manhãs, dois pacotes eram o néctar dos deuses, como eu ansiava aquele momento, pois não haviam marmitas, o lanche era mesmo os pacotes de leites, provavelmente este leite poderia fazer o dia de muitas crianças por este Portugal fora, pois acredito que muitas poderiam ter um lanche invés de não ter nada…

Quem não se lembra do recreio e dos jogos estúpidos das pedradas entre “parte velha e parte nova da escola”, sim no meu tempo não havia parque, o recreio era em terra batida e areia… Bolas de Futebol? Claro que sim, tínhamos latas, os pacotes de leite, que serviam para o propósito… Professora inesquecível, D. Delfina… Quem não se lembra da sua régua de 50cm em metal? Só de escrever e me lembrar isto a minha mão fica dormente… Estranhamente olho para esse tempo, relembro os meus amigos e não me recordo de hierarquias, status, etc… Não me recordo de meninos ricos e pobres, lembro-me das suas / minhas feições de água, sal e areia…

Saía de casa sozinho às 7:30 da manhã e ia para a escola a pé, uns 20 minutos, mas logo em cada esquina contornada encontrava sempre um companheiro Caxineiro, para me acompanhar nas palhaçadas até à escola, sim tocar nas campainhas das casas era uma delas, e correr para não ser apanhado…

Lembro-me também que a escola terminava as 13:00 e lá ia com uns copinchas para o “fieiro” brincar aos pescadores nos barcos que se encontravam no estaleiro, lembro-me usar as latas de tinta e com elas pescar camarão e caranguejos para comer, crus ou numa fogueira feita ali mesmo, cozidas na própria água do mar… Lembro-me de me lançar do cais até à água, ir a nada do cais norte até ao cais sul… Lembro-me de me enfiar pelo meio das pedras do cais e andar à famosa pesca das “ranhosas e dos lulões”… Sei que os construtores civis tinham graves problemas nas obras, pois o revestimento de plástico dos cabos eléctricos tinham tendência a desaparecer, pois eram usados como “armas”, os famosos canudos que eram alimentados por milho, outro problema que a D. Rosa tinha no seu milharal, pois um monte de putos precisavam de munições e as suas espigas serviam esse propósito… Já agora as uvas americanas dela também eram uma delícia.

O meu Pai era pescador tal como todos os meus tios, e a minha mãe na época trabalhadora numa fábrica de conservas, tal como as minhas tias… Lembro-me que sempre que se ouvia uma notícia de um barco que naufragou, sabia que a probabilidade de um ser Caxineiro era enorme… ouvia-se gritos, vestes negras e rezas, sim as pessoas são muito devotas “Aqui” rezam para que “Aquele” que dá o pão, não leve nenhuma Alma! Mas a realidade era dura… A morte era uma “companhia normal”… Mesmo agora andasse pelas Caxinas e as vestes das Caxineiras são na sua maioria os mantos negros, pois quase todos nós já perdemos alguma alma no Mar!

O Mar é muito respeitado, pois num dia trás pão no outro dor… Mas lançamo-nos a ele de “Peito Feito” com os nossos Homens de ferro em barcos de pau…

Nunca se esqueçam que Os Caxineiros são Vila-condenses de 1ª, como são os de outros lugares da cidade de Vila do Conde.

…. (to be continued)

E agora perguntam-me vocês. De onde raio vem isto e porquê?

Os tempos e o mundo muda, queria que fosse para melhor mas o que vejo é exactamente o contrário…

Ontem o meu filho pediu-me para ir ao Parque João Paulo II para andar a brincar, e eu disse:

  • Vai andando que o pai já lá vai ter.
  • Sozinho não vou, pois tenho medo que “Alguém me Leve!”

Estamos a falar em 100 metros…

Quando olho para trás e vejo as minhas aventuras… Oiço o meu filho dizer que tem medo de andar 100 metros sozinho? Das duas 1, ou eu o mimo de mais e a transmissão do Querer e o Ser Caxineiro não está a ser bem passada, ou o mundo que lhe é transmitido e o mundo que ele vê se tornou um local completamente perigoso para se estar e viver… quero acreditar que seja a segunda hipótese, mesmo assim não muito abonatória para a “Nossa Canalha”.

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